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Prestigiado jornalista poveiro; sócio nº 15 do Varzim; director do jornal do clube desde 1982; Sócio Honorário e detentor, mais do que merecido, de um Troféu Lobo do Mar como prémio pela devoção ao clube...
Consideramos estes dados mais do que suficientes para suscitar o interesse dos nossos visitantes para a entrevista que se segue. Hoje, o site oficial do Varzim dedica a sua atenção a Luís Leal. Uma figura incontornável do nosso clube e cujo amor ao Varzim, se traduz numa vida inteira de dedicação em prol deste emblema e numa filiação clubística que já leva 58 anos. A «conversa» é longa mas merece toda a sua atenção.
Consegue lembrar-se de quando se tornou sócio do Varzim?
Tudo tem um princípio e eu nasci praticamente envolvido no emblema do Varzim. Com 9/10 anos já fazia parte da família varzinista, primeiro como “mascote oficial” quando meu irmão “Madeirense” jogava na equipa principal, e depois quando ele era guarda do campo (morando numa casa demolida em 1964 aquando da construção do campo de treinos) me encarregava de fazer a distribuição dos equipamentos para os treinos, nos balneários que ficavam na parte sul do campo do Varzim, mais ou menos onde hoje está a cabine sonora. Mais tarde, como fui trabalhar para as oficinas do “Comércio da Póvoa” em 1946, ainda com 12 anos, tinha como colega de trabalho o Chico Maia que era ponta-direita da equipa varzinista, e tornou-me no “oficial” portador da mala do equipamento que cada jogador levava para os jogos, fazendo-me habitué dos jogos na Póvoa e fora dela. Mas fui crescendo com a soma dos anos e como, chegado aos 17, encontrava dificuldades para servir de “rapaz da mala”, optei por entrar para sócio do Varzim, nessa altura com a categoria de menor, a pagar 15 tostões mensais e recebendo o número 983. E sempre me mantive como sócio, mesmo quando estive ausente dois anos em Águeda, pois o sr. Alípio Oliveira, presidente de então, não aceitou a minha baixa temporária por ausência, “obrigando-me” a pagar as quotas, mesmo com atraso, quando vinha temporariamente à Póvoa. Mais tarde passei para sócio de bancada, e mesmo possuindo cartão de livre-ingresso de Jornalista e de lugar cativo vitalício nos camarotes, nunca deixei de pagar as quotas. Até hoje.
São muitos anos de ligação ao clube... uma bagagem repleta de histórias e emoções... Se fizer uma viagem ao passado, quais as recordações que surgem à tona por terem sido as mais marcantes?
Não sou capaz de reduzir nesta entrevista a minha longa vivência ligada ao Varzim. São tantas e tão diversas as recordações e até os episódios que não consigo sintetizá-las em tão curto espaço de tempo. Há três anos, quando a Junta de Freguesia da Póvoa me prestou uma homenagem, o presidente da Câmara Municipal, o devotado varzinista Macedo Vieira, no final do seu discurso, fez-me um desafio público para que publicasse um livro composto por estórias do Varzim que até servisse para fazer a história do clube. O pedido está no ar, e talvez um dia seja possível dar resposta ao solicitado.
Exerceu diferentes funções no clube. Pode dizer-nos de que formas diversas se dedicou ao Varzim?
Os primeiros passos, já os referi. Depois, foi toda uma vida sempre de “preto-e-branco” no coração. Dediquei-me ao jornalismo envolvido no Varzim. Conheci vários jornais nacionais, sem esquecer os locais, sempre com o Varzim às costas. Entrei na Rádio, envolvido na bandeira varzinista. Para além disso, de ter sido “mascote” e “roupeiro” na meninice, ajudei meu irmão João na cobrança das cotas, já na adolescência. Mais tarde, entrei nos quadros directivos… quase levado ao engano, pois foi uma surpresa ouvir o meu nome na altura da eleição. No entanto, durante mais de um mandato dei tudo ao serviço do Varzim. Inclusivé fiquei de posse das chaves e dos destinos do clube durante 15 dias (com os funcionários do clube Neca Vilaverde e Joaquim Moça a ajudar), quando o dr. Armindo Graça, como presidente da Assembleia Geral, não quis ficar de posse das chaves entregues pelo dr. João Fernando, depois de duas reuniões inconclusivas para encontrar sucessão directiva. Foi em Fevereiro de 1974, dois meses antes do 25 de Abril. Tive problemas por exercer o cargo de delegado aos jogos e fazer os relatos nos jornais ao mesmo tempo. Mas soube sempre destrinçar os cargos. Ao ponto de em pleno “Comércio do Porto”, ter escrito que num jogo na Póvoa “toda a gente perdeu a cabeça até o delegado ao jogo” que era eu e tive que aguentar, nesse dia, com a fúria dos adeptos varzinista, por causa da arbitragem e que custou ao clube a interdição do Estádio e a mim uma penalização de 10 dias de suspensão por parte do Conselho de Disciplina da FPF. Foi na época seguinte à célebre “Liguilha” da II Nacional, com o Montijo, que me deu muitas estórias para contar. Nessa altura (1973) colaborei na fundação do Jornal O Varzim, com Rodgério Viana a director, e mantive-me colaborador assíduo durante anos até que em Março de 1982, a convite do então presidente Francisco Troina, fui nomeado director deste órgão do clube, com a aprovação da Assembleia Geral. Ainda me mantenho nesse cargo, apesar dos altos e baixos na elaboração do jornal. Tenho trabalhado sem qualquer fim lucrativo ao longo dos anos, e cá estou a manter a mesma linha de conduta, apesar de já ter ultrapassado as “Bodas de Diamante” na idade. Recordo que no Varzim para além de ter recebido o emblema de prata dos 25 anos de sócio e o emblema de ouro pelos 50 anos, também fiz parte do primeiro Conselho Varzinista em 1987, na presidência de Lídio Marques, e no mandato seguinte fui nomeado Sócio Honorário na gerência de Domingos Lopes de Castro (daí o lugar cativo vitalício nos camarotes) e, mais recentemente, recebi o Troféu Lobo do Mar. Tudo com a referência de “prémio pela devoção ao clube”. Que seja…

Como pudemos perceber uma das suas relíquias é o jornal do Varzim. Em termos de apoios, o jornal está bem servido ou merecia mais?
Sem dúvida que merecia muito mais. Há portas que se fecham à publicidade. Há pessoas que não fazem destrinça entre o jornal e os dirigentes do clube. O jornal necessita de um departamento próprio para a angariação da publicidade, no sentido de acompanhar o seu constante crescimento. Posso garantir que na época passada O VARZIM atingiu o ponto máximo na sua estrutura jornalística e gráfica, com destaque para a equipa de devotados colaboradores, incluindo o Departamento de Formação, e também para o apoio publicitário da Norprint e da Câmara Municipal, principalmente. O importante era manter a mesma bitola, ou até ultrapassá-la, com melhor apoio para que o jornal continue a ser distribuído graciosamente pelos sócios e adeptos.
Que pessoas da Família Varzinista guarda na memória com maior carinho e consideração?
Acima de tudo, o Dr. João Fernando, o Prof. Eduardo Fernandes, por serem aqueles que mais de perto lidei durante bastantes anos, como colegas de direcção, como amigos e até como conselheiros. Noutro aspecto, Lídio Marques, presidente honorário, foi a pessoa que mais me marcou pela positiva, repartindo comigo as confidências, as dificuldades, os anseios, a alegria das vitórias e a tristeza das derrotas. Duma forma ou doutra, muitos varzinistas fizeram e fazem parte da minha vida ligada ao Varzim. Quer directores, jogadores, treinadores, funcionários, ou associados.
O clube está a atravessar um momento difícil ao nível da tesouraria e também ao nível directivo. Situações que não são inéditas na história do Varzim. Como é que um sócio com 58 anos de ligação ao clube lida com esta realidade?
Desde sempre o Varzim viveu em constantes dificuldades. Não falta quem se recorde dos peditórios de porta-em-porta, com o saudoso e grande varzinista Alípio Oliveira de saca na mão. Os males financeiros eram assim debelados na altura que o Varzim andava pelos Campeonatos Distritais e jamais deixaram de existir, agravando-se quando entrou na alta roda do futebol português. Nem sempre os feitos das grandes vitórias conseguiam suavizar as dificuldades económicas. Os sócios gostam de ver o clube no topo mas esquivam-se quanto podem para manter o “estrelato”. Os tempos que correm são os piores de sempre. Antigamente sabe-se muito bem como se fugia a responsabilidades legais para as finanças não serem afectadas. Agora, o pior inimigo do futebol e dos clubes é o Governo e seus tentáculos que não perdoam fugas e até, praticamente, se vingam das “baldas” dadas desde sempre em tempos idos. Governar um clube de futebol nos tempos que correm, desde o profissional ao amador, é a maior dor de cabeça para os dirigentes, quantos deles até a serem mal julgados por aqueles que gostam mais de criticar do que colaborar. O momento actual do Varzim é muito preocupante, na tentativa de evitar o que outros clubes de nomeada já foram atingidos. Portanto, tem de haver mais compreensão e colaboração do que acusar seja quem for pelo trabalho desenvolvido. Isso é o que mais me preocupa. E acima de tudo saber como “se faz dinheiro” para suportar um clube envolvido de constantes despesas, com as antigas a avolumarem as actuais.
O Varzim é uma enorme parcela da sua vida. Não é exagero nenhum afirmar isso, pois não?
Não é exagero, porque é verdade. De facto o Varzim fez e continua a fazer parte da minha vida, não só com a ligação que sempre tive ao clube, como também com a outra forte ligação ao jornalismo. É tão flagrante que não é possível encobrir essa realidade.
Como é que vive os resultados do Varzim dentro das 4 linhas?
De duas formas diferentes: como varzinista, passo da alegria à euforia com os bons feitos do clube, consoante as suas dimensões, e sofro com as desditas de qualquer tamanho, não sendo capaz de passar ao lado de tudo isso; como jornalista, procuro a isenção, sem exteriorizar alegrias e tristezas, embora quantas vezes isso custe a suportar.
Como descreveria a massa associativa poveira?
Para mim é a melhor massa associativa do Mundo. Composta por poveiros, residentes na Póvoa ou simples simpatizantes, quando é preciso arregaçar as mangas em prol do clube, lá está ela a vibrar. Pena é que nem sempre esse espírito seja a única bússola a orientar o papel da massa associativa e o próprio clube. Mas há exemplos muito piores por aí fora, onde a falta de civismo é encapuzada com o chamado amor clubista. No Varzim isso não acontece, felizmente.
Com base no plantel 2010/2011 do Varzim, quais as suas expectativas para a próxima época?
O que se pode esperar de um plantel constituído à base de redução financeira? No entanto estou convencido de que a estrutura tem uma qualidade superior à da época anterior. Ficou a “espinha dorsal”, incluindo a equipa técnica, ao ponto de todos os jogadores abordados para renovarem os contratos terem correspondido. Apenas André foi excepção, mas não era coerente “cortar as pernas” ao jovem fruto do clube. Todos os sectores registam uma mescla de juventude e experiência, o que pode facilitar a missão da equipa técnica. Com algumas virtudes: evitar os jogadores estrangeiros e lançar o mais possível a juventude, nomeadamente a que sai da Formação do Clube. Isso está à vista de todos no actual plantel. Resta esperar que dê o resultado desejado em termos desportivos e financeiros.
E em relação ao futuro do clube? O período é muito delicado e até aquilo que era visto como a solução para muitos dos problemas, o novo Estádio, passou a ser considerado inviável, face à crise financeira. Acredita que o Varzim vai ultrapassar esta fase negra?
Na questão do novo Estádio, tenho a minha opinião própria que pode não se enquadrar no actual momento de crise que o clube e o próprio país atravessam. Mas que é urgente abandonar o actual por estar demasiado caduco e quase “impróprio para consumo”, disso ninguém tenha dúvidas. Francamente que gostava de ver o Varzim a actuar num Estádio mais operacional, já que por esse Portugal fora não faltam clubes de menor dimensão que tenham melhores instalações do que o nosso. E não venham com os exemplos dos “Estádios Europeus”, porque isso são outros contos.
Para terminar, pedia-lhe que deixasse uma mensagem para a juventude varzinista e para a massa associativa poveira.
Muito simples: que todos se capacitem que a Póvoa não é do Varzim, mas que o Varzim é da Póvoa e que faz parte integrante da vivencia poveira, envolvendo todos os credos políticos e religiosos. Pois se o Varzim é da Póvoa, há que o tornar cada vez maior, como queremos que seja a nossa terra. O resto vem de acrescento. Neste aspecto a juventude tem tanta responsabilidade como os mais idosos, pois todos devem pertencer à mesma família varzinista.
SN

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